“Trabalho triplicou”, diz professora após volta de aulas presenciais

“Trabalho triplicou”, diz professora após volta de aulas presenciais

Com a reabertura gradual das escolas em diferentes estados do país, professores têm se desdobrado para administrar suas rotinas de trabalho entre o ensino presencial e o online —o chamado ensino híbrido. A modalidade tem sido adotada pelas redes de ensino em meio às adaptações por causa da pandemia do novo coronavírus.

“Como agora é presencial e online, tenho que preparar aulas diferentes”, diz a professora Cleonice Paes de Barros, 59, que dá aulas de geografia na rede estadual de São Paulo. Ela conta que tem prazer em dar aulas, mas afirma que, em meio a essas mudanças, eventualmente acaba ficando mais cansada.

O que cansa é a exposição à tela do computador. Não é um cansaço físico, é mental.

Cleonice Paes de Barros, professora.

A professora Vanessa Antunes, 42, dá aulas de história na rede estadual do Amazonas e também se queixa de cansaço. Ela diz que já teve que atender alunos ou preparar conteúdos para o ensino remoto fora do horário de trabalho, tarde da noite.

O mesmo professor tem que dar conta da aula presencial e da remota. E aula presencial eu tenho todo dia. O trabalho triplicou

Vanessa Antunes, professora.

O UOL conversou com três professoras de escolas públicas de diferentes estados brasileiros e que voltaram para a sala de aula em épocas distintas para entender como está a rotina de trabalho delas com a retomada das atividades presenciais. Cada rede pública estadual tem suas particularidades, mas todas as professoras levantaram alguma queixa em relação à sobrecarga de trabalho e ao desgaste mental.

Vigilância constante

Yara Gonçalves Manolaque, 40, é professora de língua portuguesa na rede estadual do Pernambuco. Ela conta que voltou presencialmente para a sala de aula na semana passada após a Justiça determinar o fim de uma greve deflagrada pelos docentes do estado contra a retomada das atividades.

“O tempo todo a gente tem que ficar se policiando, e também [policiando] os alunos. ‘Não aglomere, não tire a máscara, faça a higiene das mãos’. Temos que falar várias regras e observar se os alunos estão cumprindo as medidas de segurança”, diz ela. “Tenho que controlar o meu corpo e o corpo dos alunos”.

A docente afirma ainda que, por se tratar de uma retomada ainda recente, há instabilidade no que diz respeito ao planejamento de turmas e de horários para as aulas presenciais. Segundo ela, não é possível nem sequer prever quantos alunos irão cada dia para a escola, o que ela diz prejudicar a organização das aulas.

Eu ainda não sei pedagogicamente como eu vou lidar com o conteúdo, o que eu vou dar remotamente. O professor está tendo que lidar com tudo sozinho, porque não houve planejamento pedagógico e nem de calendário

Yara Gonçalves Manolaque, professora.

Yara também diz que, nos últimos tempos, sente que tem trabalhado mais. “Não é um cansaço físico, é um cansaço mental dessa pressão toda, e mais ainda da pressão pelo retorno em paralelo com as aulas remotas. Confesso que não sei o que vou fazer”, relata.

A secretaria de Educação de Pernambuco diz que os responsáveis dos estudantes foram consultados na semana anterior ao retorno presencial, informação que permitiu avaliar a necessidade ou não de rodízio entre os alunos. A volta para a sala de aula não é obrigatória no estado.

Sobre os professores, a secretaria informa que fez encontros de orientação pedagógica. E que os docentes ainda farão um diagnóstico da aprendizagem dos estudantes para poder planejar ações a respeito dos que apresentarem defasagem.

Celular “24 horas” por dia

Em Manaus, cada turma foi dividida em dois grupos. A ideia é que haja um rodízio entre os alunos nas aulas presenciais. Mesmo assim, o mesmo professor fica responsável por esses estudantes —tanto nas aulas presenciais como no ensino remoto.

“Eu sempre fui contra o uso de celular em sala de aula. Mas agora não tem jeito, o celular fica 24 horas [comigo] porque volta e meia tem aluno procurando a gente, tirando dúvida”, diz a professora Vanessa. Para ela, o ideal seria que os alunos que estão fora da sala de aula fossem acompanhados por docentes que não têm a responsabilidade do ensino presencial.

Vanessa conta que, hoje, a comunicação entre alunos e professores tem sido feita principalmente pelo WhatsApp. Em um grupo no aplicativo de mensagens, ela publica conteúdos das aulas todos os dias. “Deixo aberto no privado para eles virem tirar as dúvidas”, conta. “Você fica sobrecarregado porque tem que dar nota para todo mundo”.

A secretaria de Educação e Desporto do Amazonas diz que “não houve acréscimo de horas ou serviços” na jornada dos professores que voltaram às atividades presenciais. Sobre a saúde emocional dos docentes, a pasta diz que presta apoio no momento de acolhimento como uma equipe psicossocial.

“A gente tem que se reinventar”

A professora Cleonice, de São Paulo, diz que o diretor da escola faz uma tabela de horários para que haja revezamento entre os professores na sala de aula.

“Pela manhã, vão sete professores. E os que não foram para o presencial ficam em casa para a aula online”, conta. “É assim, revezando sempre, para não sobrecarregar ninguém”. Mas a divisão entre o ensino online e o ensino presencial, conta, “dá mais trabalho”. Em casa, para manter a motivação dos alunos no ambiente online, Cleonice já chegou a dar aulas fantasiada: quando o tema foi a Grécia, por exemplo, se fantasiou de grega.

“Tenho orgulho que eles gostem da minha aula e sempre busco diversificar”, conta. Com a pandemia do coronavírus, segundo ela, muitos alunos, em especial os do terceiro ano do ensino médio, ficaram desanimados e até deixaram de frequentar as aulas online por terem que trabalhar.

A gente tem que se reinventar, porque [os alunos] acabam vivendo uma rotina e muitas vezes desanimam. Antes mesmo das minhas aulas, eu entro dez minutos mais cedo na plataforma e aguardo. E aí eu ponho música, faço acolhimento, converso com eles. Sempre faço algo de motivação, para eles não desistirem

Cleonice Paes de Barros, professora.

Henrique Pimentel, subsecretário de articulação regional da secretaria de Educação de São Paulo, afirmou ao UOL que a pasta recebeu relatos de exaustão e cansaço dos professores. Entre as medidas adotadas pela pasta estão a organização de horas de trabalho de forma coletiva com os docentes e também a realização de videoconferências com especialistas para abordar temas relacionados à saúde mental junto aos professores.

Ele diz ainda que a secretaria tem dialogado com toda a comunidade escolar de forma a deixar clara a necessidade de respeito à carga horária do professor. “Sempre reforçamos que o professor não precisa trabalhar além de sua carga atribuída. Ele pode deixar claro para os estudantes que o horário em que ele vai estar disponível para os alunos é o horário de aula”, afirma o subsecretário.

 

Fonte: UOL

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